A Força das Marias Terra que Semeiam Autonomia
A Força das Marias Terra que Semeiam Autonomia
Em Mato Grosso, a união entre extensionistas do IFMT e mais de 800 famílias de agricultoras transforma o campo com conhecimento técnico, independência financeira e segurança alimentar.
O dia 15 de outubro marca o Dia Internacional da Mulher Rural, data criada pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 1995 e oficializada pela Assembleia Geral em 2007, que destaca e reconhece a coragem, a resiliência e a capacidade de liderança das mulheres que vivem e resistem no campo. Segundo dados das Nações Unidas, elas representam cerca de 25% da população mundial e 43% da força de trabalho agrícola nos países em desenvolvimento. Em Mato Grosso, essa transformação ganha rosto, nome e representação comunitária por meio do Projeto Maria Terra, iniciativa fruto da cooperação técnica entre o Instituto Federal de Mato Grosso (IFMT) e a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) e gestão operacional da Fundação de Apoio ao IFMT (FUNADIF).
Atualmente, o projeto atende diretamente 805 agricultoras rurais, beneficiando mais de 800 famílias em 5 polos territoriais de Mato Grosso. Organizadas em 50 coletivos e associações distribuídas em mais de 20 municípios do estado, essas trabalhadoras multiplicam o impacto do projeto para milhares de pessoas que vivem e produzem no meio rural. O objetivo principal da iniciativa é fortalecer a autonomia econômica e social e a representatividade de mulheres camponesas, assentadas da reforma agrária, quilombolas e integrantes de comunidades tradicionais. Por meio do acesso a insumos, equipamentos de irrigação, suporte e capacitações técnicas e de economia solidária, o projeto viabiliza a estruturação dos empreendimentos rurais, a inserção no Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e no Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), e a permanência digna de centenas de famílias em suas terras.
Para garantir que a assistência técnica chegue de forma efetiva às comunidades atendidas, cada agricultora é acolhida com sensibilidade diante do seu contexto no campo. A gestão do projeto conta com a liderança de professoras e professores do IFMT que atuam como articuladores territoriais, conectando a extensão acadêmica à prática diária vivida nas propriedades assistidas.
No Polo Jaciara, a professora Marleide Araújo, docente do Campus São Vicente desde 2006, atua no ensino, pesquisa e extensão, acompanhando os coletivos dos municípios de Juscimeira, Jaciara, Campo Verde, Poxoréu, Planalto da Serra e Nova Brasilândia. Para ela, articuladora do Maria Terra na região, o papel da mulher rural passa pela necessidade de superar a invisibilidade histórica do trabalho feminino no campo quando aponta que “Eu sempre me esforço para que as mulheres sejam vistas, que faça parte dos lugares, como por exemplo da academia, desde o ensino, pesquisa, extensão e a cultura também. [...] O trabalho feminino do campo por tempo foi visto como ajuda ao companheiro, aos filhos, mas quem tem visão consegue enxergar que não é ajuda, elas comandam, possuem força, possuem gestão e muita coragem. Portanto, o alimento que chega à cidade leva a marca e o carinho das mãos do trabalho de uma agricultora que necessita não somente de homenagem, mas de políticas públicas para a comercialização [da sua produção], de crédito, respeito, saúde e dignidade [...].
"Essa presença constante do projeto inspira histórias de superação nos assentamentos e comunidades do polo. No Assentamento Dom Ozório, em Campo Verde, a trabalhadora aposentada Dona Venair relata como o beneficiamento da mandioca em sua farinheira garante a complementação da renda familiar e o resgate da dignidade, ao ressaltar que “Porque aqui é um meio que a gente tira um... sustenta mais, para ajudar, porque eu sou aposentada, então é um complemento [...]. Nós é do Maria da Terra, nós temos que ser guerreira!”
No Sítio Deus é Por Nós, na comunidade Vale da Serra, em Poxoréu, a produtora Lindinaura viveu um momento marcante ao receber a equipe do projeto para a coleta de amostras de solo justamente no dia do seu aniversário, em 12 de outubro, oportunidade em que celebrou a parceria e o aprendizado ao destacar que "Fizemos a colheita agora da terra para análise, então a gente vai saber lidar com a terra como a terra merece. E o nosso objetivo é aprender mais, ter um destino também para a nossa produção, incentivar as mulheres também a ser mais independente, a ser mais firme [...]. Estamos maravilhadas e agradecidas pelas amizades que a gente faz ali no nosso grupo [...]."
Cultivar Esperança e Proteger a Biodiversidade
Atuando no Polo Nossa Senhora do Livramento e Poconé desde 2024, a professora Isabela Codolo de Lucena acompanha cerca de 200 mulheres distribuídas em 16 coletivos socioprodutivos. A articuladora enfatiza a dimensão humana e ambiental da extensão rural nos territórios pantaneiros e quilombolas ao ponderar que "O que mais me toca é olhar nos olhos das mulheres agricultoras e enxergar esperança, mesmo depois de tantos anos de luta contra a seca, as dificuldades de produzir e a falta de oportunidades e políticas públicas voltadas às suas necessidades. Estar com elas me faz perceber que a agricultura familiar representa muito mais do que produzir alimentos: é cuidar da terra, proteger a biodiversidade, preservar conhecimentos e manter viva a força das comunidades. Tenho aprendido que existem riquezas que vão muito além do dinheiro: estão nos saberes compartilhados, na solidariedade, na relação com a natureza e na coragem de continuar.”.
A presença do projeto no território é sustentada por uma equipe multidisciplinar que reúne engenheiros agrônomos, profissionais técnicos e estudantes bolsistas de graduação tecnológica. Essa combinação de diferentes áreas do conhecimento, aliada a uma comunicação constante e ao apoio mútuo no enfrentamento dos desafios diários das comunidades, fortalece a atuação em campo. Para a articulação do polo, a certeza de contar com um grupo integrado e comprometido reafirma que os resultados do Maria Terra não derivam de esforços isolados, mas de uma construção verdadeiramente coletiva.
Essa parceria técnica modificou o cotidiano da comunidade Campina de Cima, em Nossa Senhora do Livramento, onde a agricultora Regina, integrante da Associação de Mulheres Rurais (AMURC), relata o impacto direto da comercialização da sua produção para a sua autonomia lembrando que “Eu sempre falo: gente, eu nunca vendi cebolinha, e agora graças a Deus eu tenho canteiro de cebolinha e tô vendendo. Se eu vendo, tenho lucro. Sem falar que melhorou a nossa alimentação, o que nós plantamos para vender, nós consumimos [...].”
Cidadania no Araguaia
Criado no Ciclo II do Projeto Maria Terra para expandir o atendimento ao Leste Mato-Grossense, o Polo Barra do Garças atende os municípios de Barra do Garças e Pontal do Araguaia, oportunidade em que a articuladora territorial do polo, professora do IFMT Campus Barra do Garças, Fernanda Martins Dias, destaca que as ações iniciais priorizaram a regularização documental e o acesso à cidadania ao explicar que "O polo Barra do Garças atende hoje o município de Pontal do Araguaia e o município de Barra do Garças, com 30 mulheres cadastradas. Onde já foi verificado sua situação cadastral junto à EMPAER, para obtenção do cadastro da agricultura familiar, que é o CAF. Nós esperamos que num futuro próximo essas mulheres estejam capacitadas para a participação em editais de compras públicas, especialmente o programa de aquisição de alimentos que é o PAA. Considero que a vinda do Maria Terra para Barra do Garças vai fortalecer muito as mulheres e a agricultura familiar.”
Essa perspectiva ganha vida na rotina de trabalho da Associação Beija-Flor, criada com o objetivo de unificar as demandas das produtoras rurais locais, onde a presidenta da associação, Marinês, detalha como a união comunitária viabilizou compras coletivas de insumos, abriu portas para os mercados governamentais como o PNAE e o PAA, e vem estabelecendo parcerias para enfrentar as adversidades do clima na região ao pontuar que “A nossa agricultura ainda tem dificuldade em irrigação e cobertura com o clima, El Niño, temperatura quente [...] dificulta produzir alface pra merenda [...]”
Protagonismo e Liderança Quilombola no Polo Diamantino
No Polo Diamantino, a força da organização comunitária e a transformação social impulsionada pelo projeto ganham voz na experiência de mulheres que lideram seus coletivos em diversos municípios, a exemplo da Gleba Pompéia, em Nova Marilândia, onde a produtora Ellen resume o sentimento de união e protagonismo vivenciado pelas agricultoras locais ao celebrar que “O Projeto Maria Terra é mais do que uma iniciativa: é um abraço à comunidade, um convite para sonhar e construir juntas. Cada encontro, cada ação, é uma semente de esperança que germina em autonomia, união e oportunidades. Hoje, a Gleba Pompéia vive um novo tempo, onde as mulheres são protagonistas [...]”.
Essa mesma liderança feminina se fortalece no Quilombo Vão Grande, na comunidade Camarinha, em Barra do Bugres, onde a liderança quilombola Conceição Aline de Lima relata como a presença do projeto encorajou a formação de novas associações geridas diretamente por mulheres e avalia que "E eu, Conceição, como presidenta, como liderança, como uma mulher que tá na luta, eu consegui aproximar as outras mulheres do projeto, aproximar outras mulheres das representações, estarem mais presente em todos os assuntos que envolve o território, que envolve a independência da mulher e da sua luta. [...].”
Da Sala de Aula para a Roça: A Docência que Transforma e Valoriza os Saberes da Terra
Além de celebrar a força da mulher rural, o dia 15 de outubro homenageia os educadores e educadoras do campo. No Projeto Maria Terra, quase toda a equipe de coordenação geral, coordenação técnica e articulação dos polos é formada por docentes e pesquisadores do IFMT que dedicam suas trajetórias à extensão tecnológica. Ao mesmo tempo, o projeto conta com associadas agricultoras que também exercem a docência em escolas rurais do estado.
A coordenadora-geral do Projeto Maria Terra traz em sua origem a conexão com a terra e com a educação no campo. A professora Eloisa Azeredo recorda que sua carreira docente teve início há 25 anos em uma escola multisseriada no interior do Rio Grande do Sul ao destacar que "O dia 15 de outubro é uma data que significa muito não só para as nossas agricultoras, como para mim também. Porque eu comecei a minha docência no campo... fui aprovada num concurso do Estado no Rio Grande do Sul, numa comunidade rural no município de Maratá... [...] iniciei a minha vida como professora de escola rural. [...] Eu sou filha de professora rural, o meu pai é agricultor familiar, a minha família veio da agricultura familiar. [...] Trabalhava de manhã no ensino fundamental e médio e à tarde numa escola multisseriada...Hoje estou na coordenação do Maria Terra, conheço a realidade da lida no campo e da educação rural."
No Assentamento Santo Antônio da Fartura, em São Vicente, a agricultora e educadora Alcinete Aparecida do Espírito Santo, conhecida na comunidade como "Cida Carabina", Nascida e criada na região, Cida destaca que a sala de aula se transforma em um espaço de troca pedagógica, na qual a teoria do plano de aula se conecta diretamente com a bagagem prática que os filhos dos agricultores trazem da roça, ao apontar que “Quando você chega com um plano de aula [...], aproveitando aquele conhecimento da região dentro da agricultura, você acaba tendo mais conhecimento através deles do que você passando para eles. Então é muito bom você ser professora e agricultora ao mesmo tempo.”
Essa troca pedagógica entre a academia e a roça fortalece o reconhecimento e a gratidão das famílias rurais pelo trabalho da extensão pública.
Na comunidade 27 de Novembro, em Jaciara, mãe e filha, Francisca e Júlia, destacam o impacto do aprendizado proporcionado pelos professores e extensionistas do IFMT que atuam no Projeto Maria Terra, lembrando que “O Campus São Vicente nos proporcionou um curso de associativismo e cooperativismo. Pra gente que é da agricultura familiar, que somos pequenos, é uma bênção enorme. Muitas vezes pra aqueles que acham que é pouca coisa, pra gente é muita coisa. Aqui trabalhamos em família: pai, mãe, filho.”
Da mesma forma que os professores levam assistência técnica e cursos aos assentamentos, o conhecimento tradicional da roça também ocupa os laboratórios do campus. Exemplo dessa integração foi protagonizado pela agricultora Eliene Alves da Silva Brito, do coletivo Plano Piloto (Polo Jaciara), convidada para ministrar um minicurso de produção artesanal de queijo muçarela para participantes ndo Campus São Vicente, oportunidade em que enfatizou que “[...] O projeto Maria Terra nos ajuda proporcionando viagens [para feiras e congressos], sementes, mudas... Estes dias fui até representá-los numa mini produção de muçarela, fui dar um mini-curso, o que foi muito gratificante... Eles prometem e realmente nos ajudam, fazendo com que a gente produza os nossos alimentos para vender nas feiras e tirar renda.”
Ao unir a resistência das mulheres rurais ao compromisso humanizado dos educadores do campo, o Projeto Maria Terra reafirma que o conhecimento técnico, quando compartilhado com respeito, acolhimento e comprometimento, germina e se multiplica em dignidade, autonomia e futuro sustentável para as mulheres agricultoras em Mato Grosso.
Texto: Coordenação de Comunicação do Projeto Maria Terra
Imagens: Equipe dos Polos Territoriais