Como o Projeto Maria Terra virou ponte entre as mulheres da agricultura familiar, o PAA e a mesa de quem precisa
Como o Projeto Maria Terra virou ponte entre as mulheres da agricultura familiar, o PAA e a mesa de quem precisa
Com R$8,5 milhões mobilizados em compras públicas, a extensão do IFMT atua diretamente com as produtoras rurais para garantir alimentos frescos para diversas entidades assistenciais em Mato Grosso.
Na terceira semana de outubro, três datas do calendário se entrelaçam para contar uma mesma história de transformação no campo: o Dia Internacional da Mulher Rural (15), o Dia Mundial da Alimentação (16) e o Dia Nacional da Agricultura (17). Não existe comida na mesa nem desenvolvimento sustentável sem o trabalho e o protagonismo feminino na terra. Em Mato Grosso, essa conexão ganha vida no Projeto Maria Terra, iniciativa desenvolvida pelo Instituto Federal de Mato Grosso (IFMT), em parceria com a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) e Fundação de Apoio ao IFMT (FUNADIF).
O Maria Terra disponibiliza assistência técnica e insumos agrícolas (calcário, adubo, sistemas de irrigação e pequenos maquinários) para os assentamentos e terras quilombolas, resolvendo o desafio histórico das pequenas produtoras: garantir comprador e preço justo para o que é colhido. No Assentamento Beleza, em Juscimeira, a produtora Maria da Glória de Jesus Silva relata que o cultivo da pimenta-de-cheiro ganhou força com a chegada da irrigação por aspersores e do apoio coletivo, permitindo produzir tanto para o consumo da família quanto para a comercialização.
A produção que sai das propriedades rurais não fica restrita ao autoconsumo. Por meio do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), a comida produzida nos assentamentos vai direto para creches, asilos, hospitais e outras entidades sociais.
No Assentamento Beleza, a agricultora Eslaine acompanha de perto esse percurso ao lembrar que o escoamento pelo PAA direciona a produção das pequenas agricultoras para hospitais, ONGs e asilos da região, o que para ela "é um projeto maravilhoso". Essa garantia de comercialização transforma a realidade local, como relata a liderança Sônia, da Associação Vale da Serra (Curva da Santinha), em Poxoréu, ao recordar que "antes tínhamos o produto, mas não tínhamos onde comercializar". E agora essa ajuda vem nos proporcionar novos caminhos, novas ideias".
Os números mostram essa dimensão na prática. Em apenas uma remessa do Coletivo AMURQ, de Nossa Senhora do Livramento, 3,3 toneladas de hortifrúti fresco foram entregues em Várzea Grande. Do montante, 1.788 kg atenderam a Associação Madre Tereza/CENPRHE, 879 kg foram para o Projeto Vida Nova e 648 kg abasteceram o Lar dos Idosos São Vicente de Paulo.
Nas escolas e feiras institucionais, a mudança aparece no prato e na renda das famílias. No Assentamento Plano Piloto, a agricultora Telma comemora ao carregar a colheita enviada para a merenda escolar. "Essa melancia veio da semente que ganhamos do Maria Terra. Deu quase 20 quilos, de tão pesada!" O acolhimento no ambiente acadêmico fortalece esse ciclo de cultivo, como destaca a produtora Dona Malvina, da Coopersaf, ao agradecer ao IFMT Campus São Vicente pela recepção e pela oportunidade de comercializar a produção da agricultura familiar durante os eventos e feiras promovidas pela instituição.
No Quilombo Vão Grande, em Barra do Bugres, a liderança Conceição Aline de Lima lembra que o acesso ao PAA garantiu segurança alimentar e a venda dos produtos com boa valorização. A mesma transformação ocorre em Diamantino, onde a produtora Irene Gomes, do coletivo Córrego Grande, destaca a alegria de ver o grupo trabalhando e entregando hortaliças semanalmente nos colégios e na Conab.
Em Nossa Senhora do Livramento, a organização da Associação de Mulheres Rurais (AMURC) abriu portas para a comercialização direta. A associada Marieuse lembra que o grupo já cultivava a terra, mas foi o Projeto Maria Terra que transformou o trabalho no campo em renda justa e reconhecida. A associada Vicentina acrescenta que ver o produto do campo comercializado com dignidade trouxe uma satisfação pessoal que até então não havia sentido, enquanto a liderança da associação reforça que essa mudança transformou a comunidade ao combinar autonomia financeira e oferta de alimentos de qualidade.
Análise do solo, irrigação e manejo que recuperam a terra
Se o Dia Nacional da Agricultura (17/10) nasce para reconhecer a importância dos arranjos produtivos e valorizar quem trabalha na terra, o Projeto Maria Terra entrega as ferramentas para que essa produção prospere no dia a dia. A chegada de exames de solo, kits de irrigação, insumos e assistência técnica permanente transformou a estrutura das propriedades e a rotina das famílias. A mudança aparece no ânimo das agricultoras, no aumento da colheita e na mesa farta de quem produz.
No Assentamento 27 de Novembro, em Juscimeira, a agricultora Maria Terezinha dos Santos, a Dona Terezinha, resume o papel da horticultura em sua vida ao afirmar, "trabalho com hortaliças e daqui que eu tiro meu sustento". Na mesma comunidade, a produtora Luciane Pires de Souza utilizou insumos e maquinários do projeto para transformar sua área, seguindo as orientações da equipe técnica do projeto, que acompanhou todo o processo na propriedade. "Consegui recuperar essa lavoura de limão que já estava perdida por falta de adubação, e hoje está a coisa mais perfeita, produzindo com boa qualidade. E intercalei na lavoura a abóbora, fazendo um consórcio no local."
A entrega de ferramentas e equipamentos viabilizou cultivos estratégicos em várias regiões. A doação de ramas selecionadas de mandioca fortaleceu a rotina dos pequenos produtores, enquanto a chegada de insumos estruturou novas áreas. Na Cooperpiloto, a agricultora Telma enfatiza que a entrega de mudas de banana, sementes variadas, adubo, calcário, mangueiras, enxadas e do tratorito representou um divisor de águas: "É um dos projetos que eu realmente vi acontecer. Os pequenos produtores sem projeto e sem ajuda não conseguem nada sozinhos."
A assistência técnica e a formação contínua impulsionam esses resultados. No Assentamento Santo Antônio da Fartura, a agricultora Alcinete Aparecida do Espírito Santo, a Cida Carabina, ressalta que o projeto ampliou os conhecimentos sobre o trabalho agrícola por meio de palestras, minicursos, rodas de conversa e participação em feiras regionais. A abordagem técnica inclui a análise detalhada da terra, como pontua a professora e produtora Maria Dias, da Curva da Santinha, ao explicar que o fornecimento de adubos, sementes, mudas, pequenos maquinários e exames de solo abriu caminhos para a comercialização.
No Sítio Deus é Por Nós, na comunidade Vale da Serra, a produtora Lindinaura acompanhou a coleta de amostras de terra em sua propriedade. "Tiramos a terra para análise e agora vamos saber cuidar do solo do jeito certo. Queremos aprender mais, garantir a venda e incentivar outras mulheres a buscarem sua independência."
A formação continuada é um eixo estratégico no Ciclo II do Projeto Maria Terra, alinhando a atuação de articuladores territoriais, extensionistas e bolsistas discentes. A equipe multidisciplinar, formada por engenheiros agrônomos, zootecnistas, veterinários e outros profissionais, além de servidores e docentes de cinco campi do IFMT (Cuiabá - Bela Vista, São Vicente, Várzea Grande, Diamantino e Barra do Garças), atende as comunidades rurais nas regiões de abrangência dessas unidades. Só em 2026, a Coordenação Técnica realizou três encontros presenciais em Cuiabá, com a quarta etapa agendada para novembro. O trabalho abrange o alinhamento de atribuições, o planejamento de ações, a troca de práticas comunitárias, os procedimentos administrativos e as metodologias para a permanência e o êxito das produtoras.
Essa preparação contínua fundamenta a proposta pedagógica do projeto, que substitui a lógica da extensão tradicional por um modelo de troca de saberes, muito mais rico e participativo. O coordenador técnico do Maria Terra, professor Elson Santana, destaca que a união entre o conhecimento científico e a vivência local é a chave para transformar a realidade rural. "A presença de uma ampla equipe técnica junto à agricultura familiar é essencial para instruir as famílias beneficiárias utilizando metodologias participativas, dialógicas e democráticas, integrando os saberes locais no enfrentamento aos desafios da agricultura familiar mato-grossense", afirma o coordenador, ressaltando que essa integração otimiza a produção de alimentos saudáveis, garante o uso racional dos recursos naturais e viabiliza a execução e a amplitude do PAA em Mato Grosso.
O impacto desse acompanhamento se reflete diretamente na rotina das propriedades. Somente entre agosto e setembro de 2026, as equipes de campo percorreram mais de 18,3 mil quilômetros para realizar 90 atendimentos técnicos presenciais às famílias atendidas. Os números refletem as vastas distâncias territoriais de Mato Grosso e comprovam a presença constante e próxima do projeto no dia a dia da agricultura familiar.
Onde o conhecimento do campus encontra o sabedoria do campo
A integração entre o ensino e o campo se constrói na convivência. Os docentes e extensionistas do IFMT trabalham lado a lado com as agricultoras, trocando orientações técnicas pela experiência prática de quem vive da terra.
A coordenadora-geral do projeto, professora Eloisa Azeredo, enfatiza que a missão da iniciativa vai além do acompanhamento para o PAA, fortalecendo a articulação entre ensino, pesquisa e extensão. Quando as agricultoras participam das atividades e vivenciam a rotina dos campi, elas passam a conhecer melhor a instituição, enxergam-se pertencentes àquele espaço e impulsionam a verdadeira verticalização da extensão.
No Nossa Senhora do Livramento e Poconé, a professora e articuladora Isabela Codolo de Lucena acompanha cerca de 200 mulheres organizadas em 16 coletivos socioprodutivos. Para ela, a extensão vai além da orientação técnica: é um espaço de escuta, aprendizado mútuo e apoio contínuo que transforma tanto a rotina do campo quanto a vivência dos próprios docentes. "Chego para contribuir, mas volto levando aprendizados que não cabem em livros ou certificados", reflete a professora, ao pontuar que a convivência diária com as agricultoras nos territórios ensina que a verdadeira educação acontece na confiança e no trabalho compartilhado.
A expansão do projeto para novos territórios fortalece essa rede de cidadania. No Polo Barra do Garças, criado no Ciclo II sob articulação da professora Fernanda Martins Dias, o acompanhamento inicial garantiu a regularização do Cadastro da Agricultura Familiar (CAF) para 30 mulheres em Barra do Garças e Pontal do Araguaia, preparando o grupo para ingressar nos editais do PAA e consolidar a agricultura familiar no Araguaia.
Essa transformação transparece na vida cotidiana e na proteção do território. No Assentamento Egídio Brunetto, a liderança Dalete relata que o apoio técnico e os insumos viabilizaram a produção agroecológica e a segurança das áreas cultivadas. "O Maria Terra proporcionou para nós condições de produzir com qualidade para comer sem veneno e ofertar alimentos no PAA, de porta em porta, nas feiras... Acessamos o cercamento decidido no coletivo para proteger da invasão das antas por conta da degradação ambiental da soja e monocultura", relata a produtora.
Ao integrar as três datas que valorizam o protagonismo da mulher rural (15/10), a segurança alimentar (16/10) e o fortalecimento da agricultura (17/10), o Projeto Maria Terra demonstra que combater a fome e transformar o campo dependem de ações concretas que envolvem a assistência técnica contínua, insumos de qualidade, garantia de compra pública e a abertura de novos mercados de comercialização. São caminhos que promovem a verdadeira autonomia das mulheres da agricultura familiar. Quando a mulher rural conquista seu espaço, sua renda e o acesso às ferramentas adequadas, a terra responde com fartura na mesa de quem produz e na vida de quem precisa.
Texto: Coordenação de Comunicação do Projeto Maria Terra
Imagens: Equipe dos Polos Territoriais